Transformações nos costumes
O filósofo alemão (nascido em Röcken – Prússia, hoje Nordeste da Alemanha)
Friedrich Nietzsche dizia em Genealogia da Moral que, pela maneira como uma dada
sociedade encaminha seus costumes, sua moralidade, se pode saber muito acerca de
sua saúde. Enfatiza que não é o desregramento moral o fator desagregador de uma
sociedade, mas pela análise da moral, dos costumes, se pode saber acerca da
força de uma dada sociedade.
Por exemplo, o Império Romano,
corroído internamente por uma série de desavenças, inclusive religiosas, com a
substituição das tradições fundantes daquela sociedade pelo cristianismo e
externamente pelos Hunos que empurravam os outrora aliados de Roma (como Suevos,
Alanos, Burgúndios, Godos, Visigodos, etc.) a invadir o Império teve como
resultado sua queda no Ocidente. No Oriente, somente com o fortalecimento do
Islã e as crises internas, o Império Bizantino – Romano do Oriente – rui também
em 1453.
De que maneira a decadência do
Império Romano foi percebida no campo dos costumes? Desregramento moral
generalizado. A moral não é o fator desintegrador (embora seja excelente
coadjuvante na agregação) de uma dada sociedade. Serve antes como um termômetro,
para mensurar o estado da sociedade em questão.
Digressão: Dialética, História e
Indivíduos
“Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, dizia Heráclito de Éfeso. As águas
passam, a pessoa muda e, ao banhar-se no rio de mesmo nome, trata-se de uma
outra pessoa em novas águas. Há sobrevivências e renovações, sempre. As coisas,
em síntese, estão em devenir perpétuo.
Nada é perene e tudo se transforma.
As sociedades humanas passam por momentos de intensa formação e vigoroso
crescimento seguidos de crise e decadência. À decadência de uma sociedade
sucede-se a ascenção de uma outra formação e assim por diante.
No campo dos costumes, refletindo o
estado das sociedades encontramos momentos de seriedade e encaminhamento sólido
nos costumes e outros de dispersividade, imoralidade generalizada.
O Egito já esteve à frente de todas
as sociedades humanas do ponto de vista tecnológico, religioso e moral. As
invasões de tribos arianas que tinham como principal vantagem a superioridade
bélica – contra as espadas de cobre dos egípcios os hicsos usavam
suas espadas de ferro, por exemplo, aliada a uma destreza bélica até então
jamais vista. À decadência do antigo Egito correspondeu grave corrupção nos
costumes.
Enquanto o Egito entrava em
decadência os gregos surgiam como os grandes representantes da civilização (o
próprio termo barbárie é grego e diz respeito a todos aqueles que não conhecem
nem respeitam o idioma, os costumes ou deuses gregos) em formas distintas de
encaminhamento político como a democracia em Atenas e a aristocracia em Esparta.
Quando em lutas contra o inimigo persa, também coeso e uno em torno de uma
sociedade profundamente autoritária, repressiva e controladora, os gregos se
uniam mas, uma vez derrotado o inimigo externo, guerras fratricidas levaram à
desagregação da Grécia Clássica. As lutas entre Atenas e Esparta situam-se no
ápice deste processo.
Como sempre, à decadência política,
econômica e intelectual, correspondeu uma terrível decadência moral, abrindo
caminho para uma perspectiva nova, uma tentativa de criar um Império
Helenístico, comandado pelos Macedônios liderados por Felipe e, a seguir, por
Alexandre Magno. À morte prematura de Alexandre Magno – em torno de quem
autoritariamente centralizava-se o Império Macedônico – correspondeu novo ciclo
de decadência moral somente suplantado com a hegemonia romana e assim por
diante.
Não pretendo aqui cobrir todo o
espectro de transformações de todas as sociedades européias e do Oriente Médio,
mas não há como deixar de mencionar a incrível civilização Islâmica, nascida a
partir de ideais teocráticos num contexto de desagregação e formalismos em todas
as outras representações religiosas – particularmente as maiores: católica
romana, católica ortodoxa e judaica, presas todas a um formalismo ritualístico
profundamente distanciado do Deus vivo que falava ao Profeta Maomé. A força
moral agregadora da Fé não pode, neste caso específico, ser minimizada. O mesmo
ocorre com o catolicismo existente na sociedade feudal da Idade Média, resultado
da hibridação entre os resquícios do decadente Império Romano às formações
sociais “bárbaras” que se conjuminaram.
Por vezes o Herói, o Profeta, parte,
descobre, atinge a plenitude, volta, faz discípulos e partilha de tudo quanto
descobriu, fundando as raízes de novas sociedades e civilizações. Foi assim com
Maomé que desejava a união de todos os “povos do Livro” – cristãos e judeus – em
torno do Islã, mas o resultado foi – à sua revelia, à revelia da Mensagem – o
surgimento de uma nova formação religiosa. Tão digna de respeito e consideração
como todas aquelas nascidas de forma sincera e honrada. A civilização islâmica
manteve-se seguindo uma organização completamente diferente de todas aquelas
existentes até então. Não há propriedade, “só Deus possui”. Todos são iguais e
a escravidão deve ser abolida. O homem é tão dependente da mulher que precisa de
4 para sua estabilidade intelectual e emocional (a mãe, a irmã, a esposa e a
filha. Posteriormente muitos intérpretes da mensagem fizeram com que isto fosse
traduzido como poligamia...), enfim, uma grande riqueza humana, moral. Viver
numa sociedade teocrática – compreendendo Deus, do ponto de vista moral, como o
ponto mais elevado e sublime de todos os corações humanos – tem certamente suas
vantagens.
Em nossa vida privada, percebemos
por quantas modificações passamos pela vida afora: vejo uma foto de minha
mocidade e me lembro que tinha cabelos, leio o diário que escrevo desde os 11
anos e vejo o quanto meus pensamentos e visões de mundo se transformaram... Sei
que com você também acontecem estas coisas. Suas fotos de hoje não são como
aquelas de ontem e seus pensamentos de hoje não tem equivalente no passado.
Devenir perpétuo. Coletivo e individual. Eis o ponto da dialética que busco aqui
ressaltar.
Brasil, Séculos XX e XXI
Em minha infância estudei num colégio de freiras, o Externato
Pio XII, no Rio de Janeiro. Na adolescência fui para a Escola Israelita
Brasileira Scholem Aleichem, também no Rio de Janeiro. Não por qualquer tipo de
aspecto religioso, mas por prestarem o melhor ensino da época e minha família
estar em boas condições de pagar por ele.
Estávamos aí entre as décadas de 50
e 70 do século passado. Não havia TV a cores – raras eram aquelas em
preto-e-branco – nem o apelo consumista conseqüente da propaganda ali veiculada;
as comunicações se davam principalmente por cartas ou telegramas, poucas pessoas
tinham telefones; não havia Internet; não existia Shopping Centers no
Brasil... Vivíamos de maneira mais segura no Rio de Janeiro e por toda a
parte. O salário era suficiente para assegurar a honra e a dignidade da maior
parte das famílias (sempre houve pobreza, miséria e solidariedade, mas não nesta
escala multitudinária dos dias de hoje). Havia menos ganância, as distâncias
entre os mais ricos e os mais pobres era efetivamente menor. Os impostos eram
menores e utilizados para manter serviços públicos extraordinários: educação,
saúde, saneamento, infra-estrutura, telecomunicações, energia elétrica... Os
serviços públicos eram prestados com competência e havia postos de atendimento
físico, pessoal, nos casos das comunicações e energia (hoje a gente fala com
máquinas ou, na melhor das hipóteses com pessoas que obedecem a programação de
máquinas. E o serviço caiu muito de padrão embora os impostos sejam
incrivelmente maiores.)
A conseqüência moral disso é
evidente: naquele tempo os casamentos eram pra valer e duradouros – digo isto
pois, outro dia, ao usar neste mesmo espaço a expressão “fidelidade conjugal”
recebi uma saraivada de críticas: o próprio conceito está em
desuso... A criminalidade era inacreditavelmente menor e surpreendentemente
escandalosa quando dela se tinha notícia. Aqueles desgraçados que se viam
reduzidos a recorrer a agiotas eram (vítima e agiotas) merecedores de
comiseração e consternação por parte de todos, insultados ao perceber seres
humanos a cobrar juros escorchantes de outros seres humanos – prática hoje
institucionalizada. A prática da usura era considerada criminosa e se podia
registrar queixa disto em delegacias de polícia. Hoje são as vítimas da usura
que são levadas aos tribunais.
O apelo consumista é aterrorizante.
Assistir à TV deixa à maior parte da população o consumo somente as imagens e ao
delírio de quem não tem mais alcance à educação (famílias desagregadas, filhos
educados em creches uma vez que as mães são compulsoriamente compelidas a um
mercado de trabalho em nada compensador, seja humana, seja pecuniariamente). A
criminalidade começa pelo governo extorsivo e se reflete em todas as camadas da
população.
É certo que já foi assim em outros
lugares do mundo no passado e é certo também que será diferente por aqui no
futuro, que a capacidade de regeneração do Humano é deveras surpreendente!
Mas, até que venha a regeneração,
não temos nada. Só uma sociedade decadente que precisa ser revolucionada. Nada
mais revolucionário que falar em valores cavalheirescos como aqueles os
Medievais – honra, fidelidade, senso de justiça, sinceridade... – não por acaso
os mesmos valores cultuados por gente do quilate de Lênin e Trotski na Rússia
até Che Guevara em Cuba, passando por Mao Tsé-Tung na China...
Lázaro
Curvêlo Chaves – 12/01/2006
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