Pela União das Utopias
O Summum Bonum, meta dos alquimistas, foi definido por Ernst
Bloch como “o ponto Geométrico de convergência das esperanças de todos os
seres humanos”. Vejo muitos pontos em comum entre vários credos, sistemas
filosóficos e ideológicos. Sinto afinidade eletiva e, ao invés de buscar as
diferenças, como fazem tantos durante tanto tempo, vou aqui procurar algumas
convergências e pontos em comum; são raros aqueles que se assumem publicamente
como Anarquistas, Católicos, Maçons e Surrealistas...
Socialismo, Comunismo e Anarquia
O que move todos os pensadores e lutadores dentro destas
ideologias é o anseio por um mundo melhor ou, na fórmula clássica do século
passado: “uma sociedade justa, solidária e fraterna, baseada fundamentalmente na
cooperação e não na competição”. A meta de comunistas e anarquistas é
fundamentalmente a mesma: chegar a uma sociedade sem divisões de classes sociais
e sem a exploração do homem pelo homem. Estou seguro de que a humanidade se
encaminha nesta direção, mesmo que hoje vivamos mais um daqueles momentos
dramáticos em que os retrocessos tendem a nos desanimar. Para os
Anarquistas a Sociedade do Futuro se construirá
passo a passo, sem a necessidade de uma revolução violenta e mesmo sem a etapa
da economia planificada. Para os Comunistas, a chegada a uma sociedade sem
classes passa pela etapa da Ditadura do Proletariado – aqui entendida como o
governo da maioria. Sem hipocrisias ou falseamentos vãos, proclamam que vivemos
sob a ditadura de uma minoria possuidora dos meios de produção e que a todos
escraviza sob o vago nome de “democracia”. Em substituição à ditadura do Capital
(trabalho humano morto, cristalizado) sobre as pessoas, propõem a etapa da
ditadura dos seres humanos vivos sobre o Capital o que, naturalmente, aterroriza
10 entre 10 burgueses ou aqueles que almejam chegar àquela posição nesta maldita
corrida de lobos conhecida como capitalismo – datado e já durando mais do que o
tolerável. Acrescento que, como o escravismo e o feudalismo, ultrapassados, nos
tempos do futuro se lembrará do capitalismo com a mesma ojeriza: dia destes
estive em um hotel em São Paulo, onde participei – a convite – de um Evento.
Tudo o que fazia tinha rótulos com preços: os frascos minúsculos de bebidas no
frigobar; pacotinhos microscópicos de amendoim; o acesso à Internet era tarifado
por segundos, etc.
Caminhando criticamente pelas ruas e
conversando com as pessoas parece que tudo tem uma plaquetinha com um preço.
Comida, remédios, atenção ou serviços (de psicólogos, médicos ou professores)...
Até mesmo o carinho, o afeto parece estar taxado...
As coisas funcionam, mas só para quem dispõe de moedinhas para fazê-las
funcionar. Sem posses, praticamente não se vive no capitalismo. Chega a
impressionar uma sociedade fundamentada precisamente nas mais vis das atividades
e conceitos: a propriedade e as trocas mercantis.
Comunistas e Anarquistas concordam
que este estado de coisas não pode durar eternamente e já está durando
demasiado. A etapa conhecida como “Ditadura do Proletariado” ou Economia
Planificada é o Socialismo, a caminho do Comunismo. Carece de falhas conceituais
– “como chegar ao reino da Luz através das trevas de uma ditadura, qualquer
ditadura?” – mas sem sombra de dúvida é mais honroso ao ser humano que o sistema
capitalista.
Catolicismo, Protestantismo e Fé
A fé é uma dimensão fundamental à existência do
ser humano. A falta de fé se reflete dramaticamente na barbárie que se
constata nas manchetes dos jornais diários... Respeito todas as religiões
existentes, tendo somente uma restrição: a maioria delas é exclusivista, e “dona
da verdade”. Neste mundo globalizado, tantas “verdades” aparentemente diferentes
conduzem a intolerâncias as mais diversas e, no limite, à guerra fratricida.
O Catolicismo contribui grandemente
para o equilíbrio emocional e espiritual de um enorme contingente de seres
humanos, particularmente no Ocidente. Capaz de autocrítica, arrependimento e
perdão, num momento foi severamente criticado pelos protestantes em função de um
apego maior às riquezas do que à espiritualidade da fé. Hoje os sinais estão
trocados e os protestantes se esmeram mais na busca de riquezas do que
propriamente no conforto espiritual. “Se Deus está te abençoando, você estará
bem financeiramente; caso contrário, estás afastado da Graça...” (SIC)
Naturalmente, os cristãos sinceros
de coração, sejam católicos romanos, católicos ortodoxos ou protestantes, buscam
uma vida sã, procuram praticar o amor fraterno, sem julgamentos como o Mestre
ensinou e, além de buscar conforto além desta vida, buscam aprimorar este mundo
inclusive porque Jesus o disse: “O Reino de Deus está dentro de vós!”
Entre outras religiões que tive a
alegria de conhecer de perto e, insisto, a todas respeito enormemente, cito
ainda o judaísmo, o islamismo, o espiritismo, a umbanda, o hinduísmo e o
budismo, entre muitas. A mensagem de todas elas consiste numa similitude
fascinante: “Abra-se!”; “Não julgue!”; “Ame a seu próximo como a si mesmo!”;
“Faça o possível para aprimorar o mundo!”, etc.
Houvesse mais tolerância e
compreensão e o mundo seria de fato um lugar bem melhor em que se viver.
Infelizmente, a maior parte dos religiosos se apega às metáforas e entende
literalmente as sublimes mensagens de todas as crenças. Inútil buscar uma
aproximação da religião através da Razão. A Razão tem o seu espaço e o seu
lugar. Também o tem a Fé. Precisamos de uma Nova Fé, de uma Nova Religião,
unificadora, congraçadora, tolerante e universal. Tenho absoluta fé em Deus, que
enviará um Profeta para este novo tempo que estamos vivendo, de crise
interminável.
Maçonaria e Ordem Rosacruz
Há diferenças notórias entre ambas as Escolas Iniciáticas. Na
AMORC encontramos um grande
aprofundamento em estudos místicos numa tradição monoteísta que, segundo alguns,
remonta ao faraó Amenófis IV, que mudou seu nome para Akhenaton e instituiu o
primeiro culto ao Deus Único. Na Maçonaria
todas as referências que até aqui encontrei apontam na direção de ser a Ordem
Maçônica diretamente derivada dos Cavaleiros Templários, perseguidos e
desmobilizados pela Igreja Católica em inícios do século XIV da Nossa Era.
Conhecedores de segredos arcanos, os Maçons se disfarçaram nas corporações de
Ofício de Pedreiros medievais e foram incorporando conhecimento de todos quantos
tinham valores antigos a serem preservados da intolerância da Igreja Católica
Medieval: alquimistas, rosacruzes, pitagóricos, órficos, enfim, todo o
conhecimento ancestral da humanidade vem sendo preservado em sigilo pela
Maçonaria.
Em comum com as filosofias e
religiões supra mencionadas uma pulsão acima e antes de todas: a busca
incessante de um aprimoramento pessoal e da sociedade em que vivem.
A Maçonaria já atuou politicamente
de maneira decisiva no mundo – a Independência dos EUA, por exemplo, foi obra de
Maçons; o mesmo se pode dizer acerca da Emancipação Política do Brasil,
proclamada por D. Pedro I mas arquitetada profundamente pelo Grande Oriente
Brasílico, particularmente sob as lideranças decisivas de Ledo Ivo e José
Bonifácio de Andrada e Silva – ouso repetir o que tenho ouvido a respeito em
muitos lugares: precisamos de uma renovação também neste sentido!
Surrealismo
O que mais atrai no movimento surrealista é a
sua vertente ética. Certo que a ética e a estética viajam no mesmo vagão na
locomotiva surrealista, mas o desejo surreal de chegar à pureza, à inocência e
transparência dos sonhos, a idéia de vivermos todos vidas transparentes e
sinceras, como se em casas de vidro, unindo a pulsão pela libertação do homem de
todas as formas de opressão e intolerância individual e coletiva está em
consonância com todas as correntes citadas acima.
Esta pulsão que nos leva a buscar
aprimoramento individual e coletivo é que haverá de gestar uma Nova Fé, um Mito
Novo, multitudinário e tolerante.
Como dizia Isaías, “chegará um tempo
em que de suas espadas forjarão arados” e não haverá mais motivo para guerras ou
intolerâncias.

Lázaro Curvêlo Chaves – 05/01/2006
Ajude a manter esta página ativa! - Clique aqui e
veja como fazer
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
©
Copyleft LCC
Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser
distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que mantida a citação
do Autor e da fonte.
Contato |