O Código Da Vinci
O Código Da Vinci, estrondoso
sucesso de Dan Brown, vira filme. A Igreja não deveria ter tantos problemas com
uma peça de ficção que, no fundo, reacende um debate religioso num mundo tão
descrente...
Embora Dan Brown cometa uma
série de imprecisões, o faz com tal brilhantismo que mais atrai do que repele as
pessoas da temática religiosa.
Conheço pessoas que se
afastaram da fé há décadas! Hoje, diante da perspectiva de ter de pensar se
“Jesus e Maria Madalena tiveram mesmo um lance” ou “Cadê o Cálice na pintura da
Santa Ceia de Leonardo Da Vinci (tentemos nos lembrar que a pintura de Da Vinci
não é um instantâneo do Evento, sim? O Evento em si, a Santa Ceia, se fato
histórico, teria ocorrido no ano 30 de nossa Era. A tela é do Renascimento,
século XVI de nossa Era, mais de 1.500 anos depois...)” ou “esse tal de Priorado
de Sião existiu mesmo?” estão sendo chamadas a refletir novamente.
O frisson tem paralelos com
“A Última Tentação de Cristo”, “Je Vous Salue Marie” e outros que fizeram maior
sucesso de bilheteria depois de serem condenados pela Igreja.
Sinceramente, vejo todas
estas obras mais como um chamamento - portanto benéficas à Igreja - do que
propriamente como coisas que possam “abalar a fé”; para isso teríamos de viver
num mundo cheio de fé e francamente, estamos muito longe disso!
O tema levantado por Dan
Brown nem é novo! Só para ficarmos nas obras publicadas abertamente, fiquemos em
duas: The Holy Blood and The Holy Grail - Michael Baigeant já
tratava deste tema: seria o “Cálice” – Holly Grail, na verdade uma
metáfora a uma linhagem “Sang Real”? Este mesmo tema recebeu
extenso e intenso tratamento acadêmico em “The Templars Revelation”,
de Lynn Picknet. Este último, por sinal diretamente citado no livro de Dan
Brown.
O brilhantismo de Dan Brown
está em escrever de maneira mais empolgante sobre um tema bem antigo, uma
polêmica bastante disseminada entre gnósticos, místicos e ocultistas.
Assisti ao filme “Je
Vous Salue Marie” - Ave Maria, de Jean-Luc Goddard – no porão da UFF! Um
colega conseguiu uma cópia e chamou seus alunos – e alguns outros professores –
a assistir. Aquele filme peca por má qualidade artística, quem assistiu deve se
recordar. Não me espantou colocar Maria contracenando com um caminhoneiro – o
“grande escândalo” do filme, mas a má qualidade artística e a pobreza do enredo.
Só assisti mesmo por um motivo: a Igreja fez tanta propaganda – negativa, mas
propaganda – que fiquei curiosíssimo!
Este, “O Código Da
Vinci”, se bem tratado no cinema promete mais. Não se consegue nada que
preste através de censura - exceto talvez ampliar a curiosidade e a bilheteria,
tal como ocorreu com aquele filme ruim “Je Vous Salue Marie”
- melhor seria estabelecer algum nível de diálogo com os criadores ou mesmo
ignorar olimpicamente sua existência. Se isto é impossível... Ah... Aí tem! E se
tem eu quero ver!
Um dos melhores filmes
heréticos que já assisti em todos os tempos foi "A Vida de Brian",
do grupo inglês Monty Python. Sensacional. Não me lembro de qualquer
posicionamento firme da Igreja sobre aquele filme, que se impôs pela qualidade
distintiva e humor ferino. Passou quase despercebido. Todos se lembram de “Je
Vous Salue Marie”, tendo assistido ou não! Mas de “A Vida de Brian”
nem tantos... Por que será?
O Julgamento de Sócrates –
Revisitando uma temática incômoda
Aproveitando que hoje estou
ranzinza, vou revisitar Isidore Feinstein Stone, I. F. Stone, como se tornou
famoso, que estudava o fenômeno democrático no Ocidente e se viu, primeiro,
obrigado a estudar alemão para compreender a polêmica em torno do marxismo em
termos apropriados. A seguir, percebeu os fundamentos do debate no Iluminismo e
aprofundou o seu francês para conferir diretamente leituras de Rousseau,
Voltaire, etc.
Radical, indo sempre cada vez
mais em direção à Raiz do fenômeno democrático chegou, como tantos filósofos e
escritores antes e depois dele, ao âmago do problema: como foi possível à
democracia ateniense condenar à morte um gênio como Sócrates?
As Apologias de Sócrates
elaboradas por Platão e Xenofonte apontam na direção de um grande gênio que foi
perseguido por sua inconformidade com o sistema político vigente e, ao final,
levado à morte. Algumas comédias, como “As Nuvens”, de Aristófanes,
apontavam na direção de um grupo (Sócrates e seus discípulos) descolado da
realidade, nefelibata mesmo.
Pensemos um tantinho na
Grande Enciclopédia Soviética, que tomou o cuidado de evitar sequer mencionar os
verbetes “Sócrates” e “Platão”.
E ainda Friedrich Nietzsche
que tinha divergências viscerais ao cristianismo e ao platonismo. Num de seus
escritos, creio que em "O Anticristo", Nietzsche menciona Sócrates en
passant e informa que “ele foi merecedor da cicuta que bebeu”.
I. F. Stone, incansável,
estudou o grego antigo para ler as expressões diretamente em seu significado
original em busca de uma solução: por que a democracia ateniense condenou
Sócrates à morte?
Tece na Obra homônima que
publicou ao final de sua longa e exaustiva pesquisa, uma série de considerações
e trago aqui algumas para a reflexão.
_ Sócrates e seus discípulos, principalmente
Platão, se rebelavam contra o sistema político vigente em Atenas (uma democracia
ainda bastante restrita) e ansiavam por um sistema político ainda mais fechado,
apreciando os Persas, os Espartanos e Cretenses. Não se mudaram para a Pérsia,
Esparta ou Creta, pois naqueles lugares filósofos não tinham lugar nem vez e
eles não tinham qualquer habilidade para qualquer outro tipo de atividade.
Criticavam a democracia e pregavam formas despóticas, ditatoriais, tirânicas de
encaminhamento do Poder político.
_ Tolerado por muito tempo, ao final de sua vida
ocorreu a Guerra do Peloponeso e Sócrates conduziu seus discípulos a seguirem os
ditames dos “30 Tiranos” espartanos contra os interesses democráticos de Atenas.
Foi denunciado e julgado. Embora a AGORA estivesse disposta a aceitar uma
explicação plausível, uma retratação formal ou uma alternativa honrosa, foi
conduzida por Sócrates a condená-lo à morte. Ele manipulou a AGORA para acirrar
os ânimos e levá-lo à condenação bem ao final de sua vida para coroar uma idéia:
“a democracia não presta”.
_ Episodicamente, cita ainda que Sócrates
hostilizava muito ao solicitar definições exageradamente elaboradas como
pré-requisito para validar não apenas um pensamento, mas toda uma conduta
existencial. Se um sapateiro não tivesse uma definição filosoficamente
sofisticada e acabada do que fosse um par de sandálias ele “não sabia nem o que
estava fazendo” enquanto Sócrates só sabia não saber de nada. Ser reduzido a
conhecer menos do que alguém que confessa de bom grado nada saber é um insulto
fora de série! Mas vem cá: desde quando o fabricante de sandália precisa de uma
definição filosófica sofisticada para exercer o seu mister?
Enfim, sempre que releio esta Obra
encontro novidades e convido aos estudantes a aventurar-se nesta seara: Sócrates
mereceu a cicuta que bebeu? Era um criminoso político? Corrompeu os jovens no
sentido político, de detestar a democracia e ansiar pela ditadura? Por que fez
questão de ser julgado daquela maneira e no último estágio de sua vida? Por que,
ao invés de propor uma pena alternativa, dando à AGORA a oportunidade de
poupar-lhe a vida, pediu sustento no Pritaneu, insultando seus compatriotas?
Será que Sócrates queria, com este dramático gesto final, teatral, meramente
“dar a vida por aquilo em que acreditava”, ou seja, que a democracia é a forma
errada de encaminhar a política humana?
É a aventura do conhecimento. A
principal fonte é: “O Julgamento de Sócrates”, I. F. Stone,
Companhia das Letras. Fontes subsidiárias são a “Apologia de Sócrates”,
de Platão, as “Memoráveis”, de Xenofonte e “As Nuvens”
de Aristófanes.
Lázaro
Curvêlo Chaves – 19/05/2006
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