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Que carreira seguir?
"...
que nos mantenhamos, sem qualquer reticência, às ordens da Transcendência, a
única pátria do verdadeiro pensamento" - Louis Aragon
Ao término do segundo grau - fim do
período "obrigatório" de estudos - o jovem se encontra numa encruzilhada, com
uma miríade de caminhos possíveis à sua frente. E agora? Advogado, Policial,
Médico, Poeta, Carpinteiro, Agricultor, Professor, Engenheiro, Empresário,
Artista... São tantas as opções, tantos clamores de tantos lados diferentes que
se fica meio "perdido", mesmo, particularmente se tomarmos em conta a tenra
idade em que se tem de decidir a profissão para o resto da vida! Às vezes
demoramos bastante até que encontremos nossa verdadeira vocação. A maioria das
pessoas, segundo recente pesquisa da OIT (Organização Internacional do
Trabalho), realiza tarefas que não têm absolutamente nada a ver com suas pulsões
internas, particularmente no terceiro mundo, onde a questão monetária se impõe
como um pesadelo do qual não se consegue despertar.
Há tempos ouvi de uma jovenzinha aí
com seus 17 anos a seguinte assertiva: "Estou concluindo o cursinho
pré-vestibular. ADORARIA ser psicóloga, mas o campo não está bom neste setor, de
maneira que vou cursar administração de empresas. Depois realizo o meu sonho".
Este adiamento sistemático dos sonhos tornou-se a tônica geral destes tempos de
crise interminável que vivemos. Não se pode, claro, abstrair pura e simplesmente
a questão pecuniária. O Capital, antigo vampiro sugador de sangue humano, tem
suas exigências e há que cumpri-las, goste-se disso ou não!
E a vocação, como é
que fica?
A moça do exemplo acima, é
hoje próspera em sua função, casada e, quando questionada sobre o antigo sonho
diz: "Ah... Aquilo era coisa de adolescente, na vida real os sonhos não se
realizam..."
Ao término do segundo grau, o jovem
já sabe quais são os anseios de seus pais quanto à carreira profissional que ele
deve seguir - já ouvi de alguns brincalhões coisas como "a vocação de meu pai é
que eu seja agrônomo" ou o que o valha - quais os anseios de seus amigos e até
mesmo tem ouvido o aconselhamento de professores. Caso se esforce um pouco
descobre ainda o que é que o Capital quer num dado momento: hoje medicina "dá
mais dinheiro", ou informática, ou engenharia. Mas e as pulsões internas, os
anseios íntimos, como descobrir precisamente o que desejo mesmo e como chegar
lá?
Deve-se ter em mente que se tem, ao cabo da
adolescência, pelo menos mais setenta anos pela frente e ninguém vai vivê-los no
lugar do interessado. Cada jovem deve parar em momentos meditativos e fazer a si
mesmo a pergunta básica: ONDE ESTÁ O CAMINHO DA MINHA BEM-AVENTURANÇA? O quê me
faz feliz? Que atividade laborativa posso exercer com alegria? O que afinal me
realiza como gente?
Descoberta a vocação íntima é agarrar-se a ela
e, apesar de tudo e de todos, ou com sorte contando com algum apoio, mover céus
e terras para fazer neste mundo o que veio fazer.
De que adianta ser um razoável administrador se
tem tudo para ser um extraordinário psicólogo? Qual o valor de um diploma de
medicina a ser entregue e demonstrado - com orgulho até - a quem tanto insistiu
e trabalhou para que se seguisse aquela carreira se o coração mora na filosofia?
Siga a sua bem-aventurança,
sempre. Eis o segredo do sucesso.
A Pérola
Dizem algumas tradições muito
antigas que nossas almas viviam no seio da Criação até que um dia cada um de nós
sentisse uma forte compulsão a resgatar a pérola preciosa, perdida do paraíso
desde a queda de Lúcifer. Ao chegarmos no mundo, tantos são os clamores e
distrações a nos atraírem a atenção que nos esquecemos completamente da pérola
passando a prestar atenção a uma porção de coisas ilusórias que aprendemos a
chamar - às vezes até a deplorar - de cotidiano, o cotidiano mesquinho,
amesquinhante e amesquinhador. Esquecermo-nos da pérola e passarmos a pensar em
termos prático-pragmático é um dos mais severos equívocos a que estamos
sujeitos. By, by, redenção, transcendência; olá, olá, dinheiro, materialidade,
carnalidade... É preciso muito cuidado com tudo isso!
A Educação no Brasil
“Saiu
no Estadão: os professores atuais no início de carreira ganham menos que um
policial também no início de carreira. É simplesmente ridículo, não desmerecendo
o policial mas a covardia dos governantes, que denigrem a imagem do professor. É
muito mais fácil educar agora do que repreender depois!” - Paulo Lucas Scalli,
professor de biologia da Rede ANGLO de Ensino
Da Crueldade do Vestibular
Sempre considerei uma COVARDIA que o
jovem seja obrigado a decidir, aos 16 ou 17 anos de idade, que profissão seguirá
pelo resto de sua vida.
Não vou aqui trilhar novamente o
caminho – de resto brilhante e preciso – que Rubem Alves percorre com muito mais
precisão e clareza do que eu: “deveriam trocar o Vestibular por um sorteio!” Tal
o absurdo a que chegamos... Um dia essa excrescência merecerá o destino que lhe
cabe: a lata de lixo da história!
Coloco-me do ponto de vista do jovem
(essa a raiz da palavra respeito, “ver o outro com os olhos do outro”) e vejo o
cipoal de confusões em que se encontra: hormônios à flor da pele; situação cruel
de quem está só e precisa, visceralmente, de alguém. Quando digo visceralmente
não estou exagerando em absolutamente nada! O ser humano depende fisicamente do
sexo oposto e ponto final. Esta interdependência humana é de tal sapiência que
somente os poetas e místicos lhe alcançam a plenitude. Se você é jovem sabe que
pensa “naquilo” pelo menos 16h por dia (nas outras oito sonha...); se já foi
jovem, lembra-se de que era assim – há médicos que até mesmo recomendam esta,
digamos, prática, como excepcionalmente salutar!
Inegavelmente a prioridade máxima do
jovem, do adolescente é encontrar alguém que lhe complete. Da maneira como o
mundo está, contudo, em geral saem bebendo em fontes sujas, salobras, poluídas,
uma após a outra, jamais se saciando. Raramente encontram aquele oásis com águas
cristalinas que seria não o seu porto final, que isso não existe, mas uma rota
paralela, amiga, maior conquista que o ser humano ousa almejar... Tristes
tempos.
Mas divago. Para conseguir sucesso
nessa dimensão – que é a primeira no pensamento do jovem – é necessário “ter
sucesso” o que, em nossa cultura e civilização esquisita, virou sinônimo de “ter
dinheiro” – nada de talento, habilidades, conhecimento, agilidade, charme... Só
“a água gélida da materialidade mercadológica”. Para tanto precisa transformar
parte de sua capacidade laborativa em dinheiro.
No Capetalismo as pessoas só têm o
direito de escolher que parte do corpo venderão a quem, por que preço e por
quanto tempo. Eu mesmo vendo a utilização do meu cérebro para Instituições
educacionais durante algum tempo em troca de proventos que me permitam seguir
vivo, ainda que modestamente, outros vendem os braços para a construção civil,
outros ainda vendem... Bem, outras partes do corpo, com outras finalidades.
Decidido que as partes do corpo que
envolvem a dimensão da afetividade, do romantismo não serão, a princípio,
utilizadas com finalidades mercantis, o jovem já terá tomado uma grande decisão
– infelizmente menos freqüente do que outrora... Parte para aprimorar o seu
físico – se desejar realizar-se como atleta ou desportista – ou um conjunto de
habilidades – se pretender realizar-se profissionalmente como músico, ator,
intelectual ou artista e assim por diante.
Aí se volta ao problema inicial: o
jovem – que raramente descobre qual é efetivamente a vocação da sua vida em
idade tão tenra – nem sempre consegue conciliá-la com um dos maiores monstros do
mundo contemporâneo, o tal do “mercado de trabalho”. Quem de nós, professores,
ainda não presenciou a transformação de uma potencialmente talentosíssima
professora, atriz, pianista ou bailarina em rude e amarga advogada ou vendedora
embora talvez melhor remunerada? Ou o contrário, que não vai aqui juízo de valor
quanto a esta profissão ou aquela ser “melhor” do que outra.
Na maior parte dos casos o jovem
conclui seu ensino médio emocionalmente inseguro, ainda em busca de equilíbrio
particularmente na dimensão sentimental, VITAL ao ser humano; incerto quanto à
sua vocação – não são raros os casos em que o jovem fala com toda a franqueza do
mundo: “estou em dúvida entre engenharia e medicina” ou “estou entre nutrição e
mecatrônica”... – e apavorado com o fantasma do desemprego.
Que Futuro estamos formando para
este país num quadro assim?
Professores
Se respeito meu aluno colocando-me
no seu lugar e vendo o mundo como ele o vê, gostaria que pais e alunos (e, em
sendo possível, autoridades também...) se colocassem também no lugar do
professor.
Alguns que ainda vivem e respiram
entre nós, sobreviventes da “Era Vargas”, de grata memória para esta Nação,
“deixaram de ser juízes de direito para abraçar o magistério” ou “casaram-se com
professora estadual que era uma forma de dar um golpe do baú!”
E hoje? A hora-aula por vezes é mais
barata que uma banana nanica. Guardadas as devidas proporções, compare-se uma
hora de atendimento médico especializado e personalizado a uma hora numa classe
abarrotada com 60 a 80 pessoas onde mal cabem 40, pouco interessados senão no
“diproma”. Como respeitar as particularidades de cada ser humano envolvido no
processo ensino/aprendizagem num quadro assim? Mas é bem pior! O professor
estadual, em geral, precisa dar (dádiva quase que literal mesmo...) uma média de
50 a 60 aulas semanais para garantir proventos minimamente condignos. Uma média
de duas aulas por turma, turmas com 60 pessoas... Lida com cerca de 2.000 (DOIS
MIL) seres humanos na fase mais carente e tenra da sua formação, do seu processo
de “hominização”.
Há muito, muito mesmo a se fazer. Eu
já confessei que, pobre, não consigo mesmo sobreviver com os proventos do
magistério público. Nem mesmo prestarei este concurso. Até por não concordar com
o encaminhamento pseudopedagógico que vem sendo dado em nossas escolas de uma
década para cá sem perspectiva de reversão, principalmente no Estado de São
Paulo...
Há muito a fazer, mas se não
estipularmos algumas metas a atingir, seremos movidos pelas forças cegas do
mercado numa direção que nada tem de humana. A título de propostas iniciais,
começaria com o seguinte:
1. Limitação no número de alunos por turma, para
que o educador possa melhor acompanhar o desenvolvimento de cada um de seus
pupilos e para que também não se veja lançado numa situação em que, por não
haver espaço temporal à livre manifestação e criatividade de cada educando,
acabe reduzido à condição de palestrante ou, no limite, repressor em seu sentido
mais grosseiro mesmo. Um educador pode acompanhar bem, de perto, o
desenvolvimento intelectual, moral, humano, enfim, de cada um de seus alunos em
turmas de, no máximo, vinte alunos.
Fica claro que qualquer
intelectual competente é capaz de proferir palestras a verdadeiras multidões. A
situação, evidentemente, é bem outra no cotidiano dos jovens estudantes. Aula é
para formar, palestra, para informar.
2. Limitação na quantidade de turmas em que o
educador deve exercer suas atividades. Lidar com um máximo de cinco turmas com
vinte alunos em cada uma por ano permitirá ao educador acompanhar de perto, com
toda a seriedade, gravidade e atenção o desenvolvimento de cada um dos cem
jovens cujos nomes e características pode memorizar tranqüilamente, com rapidez
e facilidade até. Este ponto fala do respeito humano que possa permitir aos
alunos terem suas identidades particulares reconhecidas, ponto também
fundamental numa proposta pedagógica séria.
3. Autonomia pedagógica, melhor aceitação de
metodologias alternativas. Não é concebível que se trate seres humanos como
máquinas. Que as instituições educacionais tenham suas próprias filosofias é
compreensível. Acolher com urbanidade, reconhecimento e respeito idéias
diferentes, contudo operacionais, diria mesmo que ainda mais operacionais que as
anteriores, é o mínimo que a prática democrática pede às vésperas do terceiro
milênio. Seguir com práticas medievais em pleno século XXI é um disparate!
4. Ponderável aumento salarial. É isso mesmo,
chegamos a uma situação tão absurda que somente com propostas aparentemente
"loucas" se pode reverter o quadro. Estou propondo uma diminuição na jornada de
trabalho de 50 aulas semanais para no máximo 25 e uma contrapartida salarial
condigna ao respeito que merece o profissional formador de seres humanos para a
vida.
Com salários melhores, com
mais tempo livre, o profissional do ensino poderá dedicar-se com maior empenho a
seu auto-aperfeiçoamento, exercendo um trabalho cada vez melhor.
O que está aqui proposto, com
todas as letras, em síntese, é que se coloque a ênfase no ser humano, na
atividade pedagógica em si, não mais na lucratividade da "empresa" escola ou
mesmo nas regras draconianas do mercado. Discutir a situação do mercado, a
"corrida de lobos" da sociedade industrial é, quiçá, tema para outro trabalho.
Aqui digo que mercado é uma coisa e atividade educacional é outra totalmente
diferente. Dentro das atuais regras colocadas pelo mercado - daí a expressão
"emergenciais" que apodo às medidas propostas - o professor precisa resgatar o
seu valor mesmo. Caso se prefira um linguajar diferente, enquanto o mercado
ditar suas regras, a "mercadoria" professor precisa ser melhor valorizada!
Expondo idéias como estas em
seminários a colegas professores, obtive muita solidariedade e a crítica
solitária: "trata-se de um sonho, de um delírio", mas ocorre o contrário! A
realidade é que se transformou num pesadelo macabro e irracional, só crível
porque existente de forma material, só por esse motivo falar no racional soa
como sonho ou delírio.
De todo o modo, enquanto
nosso modelo educacional estiver, como está, distanciado da Razão - embora
obedeça a algum tipo de lógica que me escapa - estaremos assistindo e
vivenciando o inferno dantesco da deterioração assombrosa das condições
intelectuais e morais de nossa gente. Urge reverter este quadro!
Soluções para o Ensino Superior
Arrogante subtítulo, não? Mas se
alguém não começar a pensar nisso, repito, seremos movidos não pela Razão, mas
pelas forças IRRACIONAIS do mercado.
Com 16 para 17 anos o rapazinho, a
mocinha, não têm, em geral, maturidade suficiente para tomar a decisão
irreversível da profissão da sua vida, tomando em conta todos os condicionantes
em questão (vocação, matrimônio, mercado de trabalho...). Vislumbro uma solução
e a coloco, pela vez primeira, em discussão:
Que as Universidades dediquem de
dois a três anos de formação GERAL superior; ênfase à Matemática, à Ortografia,
às Humanidades, sempre com acompanhamento psicológico profissional personalizado
envolvendo pais e alunos. Faço questão de ressaltar este fato pois fui uma
vítima do modelo anquilosado que ainda grassa: o meu pai tinha vocação para que
eu fosse “engenheiro eletrônico”. Resultado? Aos 7 anos de idade montei meu
primeiro rádio, formei-me especialista em Radar de Bordo de Aviões e Centrais
Telefônicas e fui cursar “Engenharia Eletrônica”. Fiz três anos na Nuno Lisboa.
Vi que não me interessava – em meu pai já não estava respirando entre os
vivos... – e a matemática me fascinava! Tranquei matrícula, vestibular de novo e
um ano de Matemática na Universidade Federal Fluminense. A gente aprende
matemática para saber mais matemática que permite resolver e aprender mais
matemática num círculo vicioso sem fim! Mas Pitágoras de Samos foi Iniciado numa
Escola de Mistérios Egípcia, o mesmo acontecendo com Tales de Mileto,
“divulgadores”, mais que “autores”, ambos, de teoremas e teorias egípcias há
muito conhecidas... Me encontrei: FILOSOFIA! Mas eu tinha de trabalhar durante o
dia e os cursos de filosofia no Brasil destinam-se somente àqueles que dispõem
de tranqüilidade econômica para ficar integralmente por conta de estudar o dia
inteiro. Alternativamente, cursei Ciências Sociais, na mesma Federal Fluminense.
Mas já estava com 25 anos quando finalmente “me encontrei”. Certo, meu caso é
paroxístico. Mas para evitar casos assim ou sequer remotamente similares, sugiro
uma integração entre corpo discente, corpo docente, orientação pedagógica e pais
de estudantes universitários em seus primeiros (2 ou 3) primeiros anos de curso
superior.
Após estes cuidados, seguramente o
jovem estará amadurecido o suficiente para a escolha da sua própria carreira.
E por enquanto?
Enquanto o mercado rege a educação,
enquanto a Razão estiver expulsa das Universidades, sugiro a meus pupilos
estudar “Arquitetura”. É um curso que abre um amplo leque de opções em Ciências
Humanas e Ciências Naturais. Tem-se de aprender um pouco de História da Arte,
Filosofia, Física, Resistência de Materiais... Curso suficientemente eclético
para que o/a jovem se encontre e possa aproveitar pelo menos alguns “créditos”
de seus primeiros estudos tão logo se decida pela carreira “definitiva”...
Lázaro Curvêlo Chaves - 14 de abril de 2000
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