Wolfgang Amadeus Mozart (1756 –
1791)
Breve escorço biográfico
"Si vivi vicissent qui morte
vicerunt". Cícero (*)
A palavra “gênio” é sempre e
apropriadamente usada para nos referimos à criatividade e à personalidade firme,
libertária e polêmica do criador de algumas das mais importantes peças musicais
da história da humanidade.
Seu nome de batismo era Johannes
Chrysostomus Wolfgang Gottlieb Mozart. Nasceu em Salzburg, pequena cidade da
Áustria sob o domínio Habsburg, em 27 de janeiro de 1756.
Começou cedo sua carreira musical.
Incentivado pelo pai, Johann Georg Leopold Mozart (1719 – 1787), conceituado
violinista e professor, aos 4 anos já dedilhava bem e compunha seus primeiros
duetos para piano. Aos 6 anos, conduzido pelo pai, iniciou sua primeira “turnê”
pela Europa a todos encantando com sua habilidade, versatilidade e precocidade!
Sua primeira Ópera completa, “La
finta semplice”, foi escrita em 1768, quando o pequeno Wolfgang contava
apenas 12 anos!
Aos dezesseis anos já tinha
composto quase 200 obras em todos os gêneros! Conseguiu o título de maestro de
concertos do arquiduque de Salzburg e em 1769 viajou para a Itália (extensão do
então poderoso Império Austro-Húngaro), onde passou dois anos percorrendo Milão,
Roma e Nápoles. De volta à sua Salzburg natal começam os problemas de que
somente o túmulo libertará... Seu gênio indomável, seu espírito libertário, em
síntese, ficam por 4 anos suportando as agonias de um semi-encarceramento
imposto pelo despótico Bispo da cidade, que se havia tornado seu suserano, seu
“senhor” e lhe proibia viagens e apresentações fora de seus domínios.
No final do Feudalismo, Mozart
encontra dificuldades em se libertar das cadeias que o prendiam e somente o
consegue quando o déspota “esclarecido” José II se decide por contratá-lo,
requisitando-o ao Bispo de Salzburg, e convocando-o a Viena, “capital da
música”.
Lá apaixona-se desbragadamente por
Aloysia Weber, mas não é correspondido. Casa-se anos mais tarde com Constanze
Weber, irmã caçula de Aloysia.
Uma recepção calorosa em Viena –
toda a novidade provoca celeuma – é seguida de um poderoso reconhecimento
artístico e o desprezo de quantos o invejavam na Corte e tinham poderes para
limitar-lhe até as condições de sobrevida material.
Genialidade não se contém, vem de
Deus e segue fluindo enquanto há vida! Mozart, libertário e indômito compõe “As
Bodas de Fígaro” em 1786 e é sabotado pelos músicos concorrentes de Viena,
que esvaziam os grandes teatros transformando aquela peça num fiasco financeiro.
A seguir, compõe “Don Giovanni” – um sucesso quase imediato, por exemplo,
em Praga (atualmente República Tcheca) e um fracasso retumbante em Viena,
novamente não pelo valor intrínseco da Obra em si, que os séculos julgam
apropriadamente, como testemunhamos, mas pelos seus contemporâneos incapazes de
compreender ou aceitar o Autor.
A cada passo tinha de explicar-se,
de justificar sua escolha. “Como é que V. Sa. ousa pensar em apresentar uma
Ópera locada num harém turco à sociedade vienense?”; “Que ousadia é essa de
trazer à alta sociedade vienense a temática de D. Juan, banida pelo próprio
Imperador?” Sempre recebido com reticência e ressalvas numa sociedade
ultra-conservadora, quão mais feliz teria sido se houvesse conseguido reduzir o
seu tamanho ao nível das regüinhas mediocremente milimétricas daqueles que se
auto-arrogavam o direito de medir-lhe a competência...
Em decadência econômica, acaba
aceitando a empreitada de trabalhar num projeto de Ópera para o povo na
periferia de Viena. Ali dá vazão a seu espírito criativo. Seu trabalho mais
conhecido do período – porque a um só tempo genial, polêmico e perene – ainda é
“A Flauta Mágica”, composta em 1791. Nela coloca, de maneira sugestivamente
velada, uma seqüência genial de alusões a uma Iniciação Maçônica, fazendo
referência a praticamente todos os 33 Graus do que hoje conhecemos como Rito
Escocês Antigo e Aceito.
A Ópera foi um sucesso retumbante de
público na periferia pobre de Viena – com maestria ele utilizava todos os
recursos a seu alcance: efeitos especiais, explosões, representação de animais
fantásticos e mitológicos, uma serpente gigante, uma “rainha da noite” que faz
malabarismos inacreditáveis com sua voz (segundo seu biógrafo Peter Schaffer,
retrataria a própria sogra de Mozart, insistente e repetitiva em brigas com ele
por causa dos problemas materiais da pequena família). A isto correspondeu um
fracasso igualmente retumbante por parte da crítica mais conservadora em música,
assim como por parte dos puristas em temática maçônica: ousou demais e, embora
nada revelasse, apresenta uma temática que muitos preferiam ver circunscritas a
outros espaços que não uma Ópera popular.
Foi o tiro de misericórdia no gênio.
Já com a saúde combalida e as finanças periclitantes recebe ainda uma encomenda
– através de um misterioso emissário secreto, somente revelado anos depois – de
um Conde Austríaco para uma Missa Fúnebre, um Réquiem, que lhe toma o resto da
saúde física e mental. A missa é deixada incompleta; termina-a mais tarde Franz
Süssmayr, um de seus discípulos.
A 5 de dezembro de 1791, aos 35 anos
de idade, a lâmpada de Mozart se apaga neste mundo e ele é enterrado como
indigente numa cova pública em Viena, sem sequer um raminho de mato a marcar o
local de sua sepultura.
“Naturalmente”, à medida que sua
Obra se expande em fama pelo mundo, os austríacos despertam para o fenômeno e, a
quem se disponha, há um monumento a Mozart em sua Salzburg natal, o “Mozarteum”.
Das notas biográficas mais
abalizadas pinço estas linhas:
“... O seu enterro estava
sendo acompanhado por poucos amigos, quando caiu violenta tempestade que os
dispersou. Mozart teve um funeral de terceira categoria e foi enterrado numa
fossa comum, com uma dúzia de cadáveres de indigentes. Não houve monumento nem
lápide (ou sequer um raminho de planta para marcar-lhe a sepultura...). Dez anos
depois, a viúva voltou ao cemitério (ouvira dizer que as valas comuns
permaneciam intactas, apenas por sete anos), mas os restos do imortal compositor
não haviam sido respeitados. Hoje nem se sabe o lugar exato onde foi sepultado.
Seus restos mortais desapareceram e o crânio conservado no Mozarteum de Salzburg
certamente não é o seu.”
Conto essa história a meus sobrinhos
e sublinho: se Mozart, com sua genialidade e brilhantismo, teve uma vida
desgraçada e complicada, morrendo solitário, no ostracismo e enterrado como
indigente, com que direito deveria alguém que sequer lhe chega aos pés em
talento reivindicar melhor sorte?
Há uma peça teatral magnífica de
Peter Schaffer sobre a vida de Mozart, intitulada “Amadeus”, levada às
telas de cinema pelo enorme talento artístico de Milos Forman. Nas melhores
locadoras de vídeo se encontram a biografia de Mozart, “Amadeus”, de
Milos Forman e a Ópera que coroa sua vida e sua obra verdadeiramente
enciclopédica (à época do lançamento, em Viena, com uma coroa de espinhos;
post-mortem com a coroa da glória imorredoura...): “A Flauta
Mágica”.
(*) Como tudo seria diferente se vencessem na
vida aqueles que venceram depois de mortos... – Cícero
Lázaro
Curvêlo Chaves – 11/05/2006

Ajude a manter esta página ativa! - Clique aqui e
veja como fazer
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
©
Copyleft LCC
Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser
distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que mantida a citação
do Autor e da fonte.
Contato |