Bethânia Amaro estreia no romance Ressalga com vozes de profissionais do sexo
Em Ressalga, Bethânia Amaro retoma a efervescência da Ladeira da Montanha, em Salvador, e dá voz às profissionais do sexo apagadas da memória oficial. A obra estreia na Flipelô.
Bethânia Amaro estreia no romance Ressalga, dando voz a profissionais do sexo
Eu cresci ouvindo histórias sobre a Ladeira da Montanha. Ligando as cidades Alta e Baixa de Salvador, ela foi, entre as décadas de 1950 e 1970, reduto da boemia e da vida noturna. Hoje, está desmoronada, fantasmagórica. Foi desse contraste que Bethânia Pires Amaro partiu para escrever Ressalga, seu romance de estreia, que devolve o protagonismo às profissionais do sexo que fizeram daquela região um centro pulsante e foram apagadas da memória oficial.
"Essas mulheres tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres", disse a escritora em entrevista à Agência Brasil.
Uma resposta direta: o que é Ressalga?
Ressalga é o romance de estreia de Bethânia Amaro, que reconstrói a efervescência da Ladeira da Montanha, em Salvador, entre os anos 1950 e 1970. A obra narra a história de três gerações de mulheres na Bahia, com foco em Graça, que se torna a maior cafetina da cidade. O livro é metaficcional e atravessado por acontecimentos históricos, como a morte de Getúlio Vargas, e figuras reais, como o médium Zé Arigó.
Da boemia ao abandono: a Ladeira da Montanha como ponto de partida
A transformação da Ladeira da Montanha, que liga as cidades Alta e Baixa em Salvador (BA), do passado boêmio até a condição atual de abandono, foi o ponto de partida para Bethânia buscar a história das mulheres que tiveram papel central na região. "Eu queria entender como tínhamos chegado de um lugar até o outro", contou a escritora.
A região, que reunia artistas, intelectuais e políticos, foi o cenário onde essas mulheres trabalharam como profissionais do sexo, quando o local era reduto da vida noturna. A memória oficial, porém, as invisibilizou. Bethânia, que cresceu em Salvador, sabia que a Ladeira havia sido um dos centros da grande boemia da cidade, mas a rua que conheceu estava "completamente desmoronada, fantasmagórica, uma rua realmente bastante arruinada, no sentido mais literal possível, os prédios estão em ruínas".
Uma história escondida por mais de 50 anos
Durante a pesquisa, Bethânia descobriu que Jorge Amado ia escrever um livro sobre o cotidiano das mulheres que trabalhavam na Ladeira da Montanha. Ele havia encomendado uma mostra de fotografias de Flávio Damm para um projeto que seria intitulado Mulher Dama. O livro nunca foi escrito, em razão da repressão que se seguiu ao Ato Institucional número 5 (AI-5), durante a ditadura militar.
As imagens ficaram engavetadas por mais de 50 anos, até que houve uma mostra delas em Salvador, em 2018. Foi a primeira vez que essas fotos saíram da sombra. "Tudo isso só me mostrou com mais segurança que havia uma história ali a ser contada", afirmou Bethânia.
A dificuldade de encontrar informações: a lente masculina da história
Encontrar informações sobre essas mulheres foi um desafio. Bethânia encontrou muito material, mas "sempre sob uma lente masculina". A Assembleia Legislativa da Bahia tem um trabalho de preservação da memória de grandes personalidades do estado, com um conjunto de biografias e livros de entrevistas, "quase na totalidade com homens".
Foi por meio das lembranças desses homens e das biografias deles, "ali pelos cantos dessas biografias e entrevistas", que ela reconstruiu o mosaico da vida dessas mulheres. "Elas não constaram da historiografia oficial, elas foram realmente apagadas em termos de registro histórico. Só sobreviveram na memória e na voz desses homens que frequentavam aqueles espaços e se lembravam delas."
Isso a assombrou: "essas mulheres [profissionais do sexo] tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo".
Devolver a voz, celebrar a existência
Tradicionalmente, a mulher na literatura ficava restrita a papéis reducionistas: "a esposa, a amante, a puta". Bethânia propõe outro caminho. "Quando a gente recupera o protagonismo da mulher como aquela que vai contar a sua própria história, devolve a voz a essas mulheres e as coloca no centro de suas próprias narrativas. Acredito que isso permite um olhar muito mais sensível, não estereotipado, e que não reduza essas mulheres às violências que elas sofreram."
A preocupação foi celebrar a existência delas, sem reduzi-las aos abusos que aconteciam ali. "São personagens densas, complexas, e o leitor é colocado diante de situações desconfortáveis e de escolhas muito difíceis que essas mulheres precisavam fazer."
Metaficção e personagens inspiradas em histórias reais
Ressalga é um livro metaficcional. Conta a história de três gerações de mulheres na Bahia, em especial de Graça, que vai se tornar a maior cafetina da cidade. A personagem foi inspirada na história de prostitutas que trabalharam ali e "tiveram que desenvolver muitas estratégias de existência para sobreviver à violência do seu tempo".
Bethânia destaca duas: Maria Pires, que ficou conhecida na capital por oferecer 50% de desconto para estudantes, e Maria da Vovó, que comandou um cabaré que reunia até 60 mulheres nas noites mais cheias e revolucionou o mercado sexual na época. Maria da Vovó ficou conhecida por enfrentar constantemente a violência policial dirigida contra essas mulheres.
Contexto histórico: de Getúlio Vargas a Zé Arigó
O romance é permeado por acontecimentos históricos do país. O leitor vai reconhecer passagens pelo suicídio de Getúlio Vargas e pela ascensão ao poder de Juscelino Kubitschek, além de figuras menos conhecidas, como o médium Zé Arigó, que realizava cirurgias espirituais no Brasil naquele período, e o delegado de costumes da capital, Almir Araújo.
"A ideia é que o leitor se sentisse transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70, e que a história [do livro] se mostrasse a ele sob esse aspecto, uma história verossímil, que de fato era muito semelhante ao que estava acontecendo no país naquele momento", explicou Bethânia.
Flipelô: apresentar o livro no território da história
Bethânia participará da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que será realizada de hoje (5) a domingo (9) no Centro Histórico de Salvador, cidade onde a história acontece. Durante o evento, ela participa de bate-papo na Casa Motiva e na Casa Odisseu, no próximo sábado (7).
"Estou muito ansiosa por essa participação na Flipelô, um festival lindíssimo que já acompanho há vários anos. Em especial, porque Ressalga se passa, em grande parte, no centro histórico de Salvador, exatamente onde ocorre a Flipelô. É literalmente o território de onde a história surgiu."
Ela também mencionou a referência de autores baianos como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro: "São autores que, quando eu era criança, me mostraram que as histórias ali ao meu redor, do lugar onde eu vivia, também mereciam ser contadas".
O primeiro livro de Bethânia, Ninho, foi vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura, todos na categoria Contos. Agora, com Ressalga, ela reafirma que a margem é centro de quem está nela, e que a quebrada produz, sim, literatura que atravessa o tempo. literatura periférica saraus e slams coletivos culturais
Perguntas Frequentes
Quando Bethânia Amaro participa da Flipelô?
Ela participa de bate-papo na Casa Motiva e na Casa Odisseu no sábado (7), durante a Flipelô, que ocorre de hoje (5) a domingo (9) no Centro Histórico de Salvador.
Sobre o que é o livro Ressalga?
Ressalga é um romance metaficcional que conta a história de três gerações de mulheres na Bahia, com foco em Graça, que se torna a maior cafetina da cidade. A obra é inspirada na trajetória de profissionais do sexo da Ladeira da Montanha.
Quem são Maria Pires e Maria da Vovó?
Maria Pires ficou conhecida por oferecer 50% de desconto para estudantes. Maria da Vovó comandou um cabaré que reunia até 60 mulheres nas noites mais cheias e enfrentou a violência policial.
Qual a importância de dar voz a essas mulheres?
Bethânia busca devolver o protagonismo a mulheres invisibilizadas pelos registros históricos, celebrando a existência delas e não as reduzindo às violências sofridas.
Quais figuras históricas aparecem no livro?
O romance menciona o suicídio de Getúlio Vargas, a ascensão de Juscelino Kubitschek, o médium Zé Arigó e o delegado Almir Araújo.