Crítica · Análises e Críticas

Cais do Valongo, no Rio, terá museu em prédio histórico do Império

ResumoO Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, terá museu no Edifício Docas André Rebouças, construção imperial de 1871. O espaço abrigará o Centro de Interpretação da Herança Africana, com investimento de R$ 77 milhões e conclusão prevista em três anos. A iniciativa valoriza o sítio arqueológico reconhecido pela UNESCO como patrimônio mundial.

O Cais do Valongo, no Rio, terá museu em prédio histórico do Império. O Edifício Docas André Rebouças, de 1871, vai virar o Centro de Interpretação da Herança Africana, com obras de R$ 77 milhões e previsão de três anos.

Rafael Albuquerque Tordesilhas
Rafael Albuquerque Tordesilhas Crítico de Cinema Nacional · 20 de agosto de 2026
Cais do Valongo, no Rio, terá museu em prédio histórico do Império
9.0/10
VereditoO Cais do Valongo, no Rio, terá museu em prédio histórico do Império. O Edifício Docas André Rebouças, de 1871, vai virar o Centro de Interpretação da Herança Africana, com obras de R$ 77 milhões e previsão de três anos.

Um cortejo do Afoxé Filhos de Gandhi iniciou, nesta terça-feira (18), a cerimônia de entrega de uma construção histórica do tempo do Império, que será transformada em museu do Cais do Valongo, berço da presença africana no Brasil. O enorme galpão, chamado Edifício Docas André Rebouças, fica imediatamente em frente ao sítio arqueológico, na região portuária do Rio de Janeiro. Apenas uma rua separa os dois.

O Cais do Valongo, descoberto em 2011 durante obras de revitalização, foi construído em 1811 e reúne vestígios da chegada de cerca de 1 milhão de africanos escravizados que desembarcaram nas Américas. Hoje, o sítio é um espaço de visitação a céu aberto, com apenas algumas placas informativas. O visitante precisa suportar o sol ou a chuva para conhecer a escavação.

A transformação do antigo prédio das Docas em um centro de referência é uma forma de acolher os visitantes, que terão acesso ao acervo de cerca de um milhão de itens encontrados no Valongo e áreas vizinhas da zona portuária, região que recebe o nome de Pequena África. O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Deyvesson Gusmão, considera que o novo centro será uma forma de acolhimento. "É importante que essa narrativa sobre o sítio arqueológico e a importância dele para o Brasil e para o mundo seja contada também dentro desse prédio", diz.

O Cais do Valongo é patrimônio cultural da Humanidade, reconhecido pela Unesco, e uma Lei Federal o reconhece como patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro. A obra para transformar a construção imperial em Centro de Interpretação da Herança Africana do Cais do Valongo está orçada em R$ 77 milhões, com recursos do orçamento da União. A previsão é que as obras de adaptação durem três anos. Também funcionarão no endereço histórico o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana e o Memorial André Rebouças, engenheiro que dá nome ao prédio.

O então Armazém Dom Pedro II só ganhou o nome de Rebouças, responsável pelo projeto de construção, em 2025. O baiano foi o primeiro engenheiro negro do país e um dos grandes nomes do movimento abolicionista. O prédio da época do Império foi construído em 1871 e não contou com mão de obra escravizada.

De acordo com o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Santos Rodrigues, o acervo deve ter mais de 1 milhão de peças. "Vai ser ao longo de 20 anos, 30 anos, que vai se dizer o que tem. Vamos precisar de equipe de todo o mundo pesquisando, identificando, trazendo à tona", disse. Alguns itens já foram identificados, como anéis, cachimbos, peças de vestuário e iscas de pesca, e estavam expostos em outros museus.

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, considera que o novo centro é uma reparação após séculos de escravidão. "Todo mundo, pretos, brancos e indígenas, precisa estar unido nesse processo, porque o Brasil só será um país com democracia cidadã quando essa justiça for feita", declarou.

O Cais do Valongo conta com um comitê gestor que reúne integrantes das três esferas de governo e representantes da sociedade civil. Um dos integrantes é Nilson Moreira, da Casa da Tia Ciata, ONG que fica na Pequena África. Para ele, o espaço repaginado será um marco da região. "É muito importante para que a pessoa que ainda não conhece a história do Cais do Valongo tenha um resumo já na frente da escavação", defende. "A gente está desenterrando histórias escondidas para que as pessoas conheçam a cultura negra como um todo", descreveu o trineto de Tia Ciata (1854-1924), baiana que se tornou matriarca do samba carioca.

A Pequena África já é considerada uma das regiões mais visitadas por turistas no Rio e concentra dezenas de quadras na região portuária. Além do Valongo, ficam pontos como o Quilombo da Pedra do Sal, o Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab) e o Cemitério dos Pretos Novos. Ao lado do futuro centro, a prefeitura do Rio constrói o Centro Cultural Rio-Áfricas, voltado à valorização da ancestralidade afro-diaspórica. Cais do Valongo história e visitação Pequena África roteiro cultural

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