Crítica · Análises e Críticas

Calila das Mercês lança livro e celebra literatura no interior

ResumoCalila das Mercês lança o romance Nódoa, primeiro livro de ficção da autora, e celebra a produção literária do interior brasileiro. Curadora do Fliparacatu, Calila defende a importância do pensamento criado fora dos grandes centros urbanos. A obra marca a consolidação de uma voz que valoriza narrativas periféricas e regionais.

Calila das Mercês lança Nódoa, primeiro romance, e celebra a literatura feita no interior. Curadora do Fliparacatu, ela defende o pensamento que nasce fora dos grandes centros.

Rafael Albuquerque Tordesilhas
Rafael Albuquerque Tordesilhas Crítico de Cinema Nacional · 31 de agosto de 2026
Calila das Mercês lança livro e celebra literatura no interior
7.1/10
VereditoCalila das Mercês lança Nódoa, primeiro romance, e celebra a literatura feita no interior. Curadora do Fliparacatu, ela defende o pensamento que nasce fora dos grandes centros.

A pesquisadora, jornalista e escritora Calila das Mercês lançou em julho Nódoa, seu primeiro romance, pela Companhia das Letras. A obra chega em um ano em que Calila também assina a curadoria da quarta edição do Festival Literário de Paracatu (Fliparacatu), ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges. O evento acontece de 26 a 30 de agosto de 2026, no Centro Histórico de Paracatu, cidade mineira a 500 quilômetros de Belo Horizonte, com entrada gratuita.

Nódoa é narrado por Regina e por Lurdes Maria, mulheres em constante movimento que não se perdem umas das outras. O livro foi todo escrito em movimento: dentro do ônibus, em rodoviárias, entre mudanças de casa. "É um livro sobre movimento e eu escrevo tudo me movendo", conta Calila. Para escrever, ela foi quatro vezes ao rio São Francisco e visitou o maior cajueiro do mundo, buscando conexão com a natureza e a urbanidade.

A forma também importa. O livro usa maiúsculas e minúsculas para traduzir cada personagem: a que não sabe ler nem escrever, a que fala baixinho, a artista plástica. "Uso muito silêncio nas páginas", diz a autora. As palavras formam desenhos, num trabalho sensorial que deixa marcas, que deixam nódoas.

O tema do Fliparacatu neste ano, Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo, propõe um diálogo entre Milton Santos, cujo centenário foi em maio, e João Guimarães Rosa, que lançou Grande Sertão: Veredas há 70 anos. Calila, que divide com Milton o território do interior da Bahia, chama Grande Sertão de "fabuloso" e diz que Campo Geral a deixou "muito emocionada".

Para Calila, o grande desafio é mostrar que o pensamento não chega de fora. "Paracatu é um lugar que produz pensamento", afirma. Ela celebra festivais pelo interior, mas alerta para o risco de que se tornem palanques políticos ou festas com "donos". Entre os nomes desta edição estão Mia Couto, Alê Santos, Bruna Lombardi, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Jeovanna Vieira, Paulliny Tort e Renato Nogueira.

O festival, para ela, integra pessoas de diferentes sotaques e respeita a literatura produzida na cidade. Calila, que já assinou eventos em Cachoeira (BA) e Cavalcante (GO), defende um olhar respeitoso sobre o que cada lugar produz. A literatura feita no interior, diz, não é menor: é outra forma de pensar o Brasil.

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