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Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator

ResumoA ditadura paraguaia de Alfredo Stroessner durou 35 anos, o período mais longo entre os regimes sul-americanos. O ator, durante o CineSur, afirmou que os crimes do período seguem sem respostas. O filme apresentado aborda um caso emblemático da repressão, evidenciando a falta de justiça e memória histórica no Paraguai.

Entre as ditaduras sul-americanas, a do Paraguai foi a mais longa: 35 anos sob Stroessner. Crimes seguem sem respostas, diz ator no CineSur, que apresenta filme sobre caso emblemático.

Lourdes Wenceslau Pádua
Lourdes Wenceslau Pádua Cronista de Cultura e Cotidiano · 31 de julho de 2026
Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator
8.7/10
VereditoEntre as ditaduras sul-americanas, a do Paraguai foi a mais longa: 35 anos sob Stroessner. Crimes seguem sem respostas, diz ator no CineSur, que apresenta filme sobre caso emblemático.

Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator no CineSur

No Bonito CineSur, festival de cinema em Bonito (MS), o ator Diro Romero lançou uma pergunta que atravessa décadas: por que os crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas? A indagação veio durante a apresentação de Quién Mato a Narciso?, filme que venceu o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Panorama do Festival de Berlim e que agora disputa a competição sul-americana do evento, que vai até este sábado (1°/8).

Entre as ditaduras militares que se instalaram pelos países da América do Sul, nenhuma durou tanto quanto a do Paraguai. O regime do general Alfredo Stroessner, no poder entre 1954 e 1989, prendeu arbitrariamente ou de forma ilegal quase 20 mil pessoas, torturou 19 mil e matou 60, segundo dados divulgados em 2003 pela Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai. Além disso, 3,5 mil precisaram ser exiladas. Entre os grupos mais atingidos estavam os formados por pessoas LGBTQI+.

O caso que não se resolveu

Um dos episódios mais emblemáticos dessa violência foi o assassinato de Bernardo Aranda, em 1959. Locutor de rádio homossexual que amava rock and roll, ele foi queimado enquanto dormia. O crime jamais foi solucionado. Para a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia, o assassinato pode ter sido tramado pelo governo militar.

Essa história inspirou o livro Narciso, do escritor e jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá, adaptado ao cinema pelo diretor Marcelo Martinessi. No filme, Diro Romero interpreta Narciso. Durante a apresentação no CineSur, ele disse: "Tanto no cinema quanto na vida, muitas vezes não temos respostas". E completou: "no cinema também não há um desfecho, porque nós mesmos, no Paraguai, não sabemos a resposta. E este é apenas um dos muitos casos que ocorreram".

Semelhança com outros países

Para Romero, a história da ditadura no Paraguai é muito semelhante à dos demais países da América do Sul, com "desaparecidos, torturas e mortes que, até hoje, permanecem sem esclarecimento". Ele acredita que apresentar essa história pelo cinema transmite a ideia de que é preciso garantir que essa violência jamais volte a ocorrer entre os países sul-americanos.

"Viemos do mesmo lugar. A ideia é que sejamos mais unidos. Acho que é isso que as pessoas querem, mas nossos líderes estão seguindo uma direção diferente. Estamos nos dividindo em um momento em que precisamos estar mais unidos do que nunca."

Novo momento do cinema paraguaio

Quién Mato a Narciso? marca um novo momento do cinema paraguaio. Nos últimos anos, o país instituiu políticas para incentivar sua produção, como a Lei do Cinema (2018), a criação do Instituto Nacional do Audiovisual do Paraguai e o acordo de coprodução cinematográfica e audiovisual do Mercosul. O documento, assinado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, moderniza regras para o setor e permite que coproduções recorram a fundos públicos de fomento dos países do bloco.

O ator, músico, produtor e membro da Academia de Cinema e da União de Atores do Paraguai, Celso Franco, lembra que o cinema do país só ganhou impulso após o sucesso de 7 Caixas (2012), filme que ele protagonizou e que atraiu 300 mil pessoas aos cinemas paraguaios. "Foi um filme que teve um impacto enorme no cinema. Foi um fenômeno, e um fenômeno decorrente de uma questão que venho analisando há muito tempo: a falta de visão do Paraguai sobre si mesmo."

Há cerca de cinco anos, o setor de investimento ganhou força. "Agora temos o INAP, o Instituto Nacional do Audiovisual, que conta com fundos específicos para o cinema e vem impulsionando fortemente a produção audiovisual." Para ele, o cinema paraguaio poderá, finalmente, contar suas histórias: "Há muitas histórias para serem contadas".

O que isso significa para você

A discussão levantada no CineSur não fica restrita ao Paraguai. A pergunta sobre crimes sem respostas ecoa em toda a América do Sul, onde ditaduras deixaram marcas que ainda não foram totalmente esclarecidas. Para quem acompanha a produção cultural da região, o filme é uma janela para um passado que insiste em não ser esquecido, e um lembrete de que a memória é parte da construção de um futuro mais unido.

Perguntas Frequentes

Quem foi Bernardo Aranda?

Bernardo Aranda foi um locutor de rádio homossexual, amante do rock and roll, assassinado em 1959 no Paraguai. Ele foi queimado enquanto dormia, e o crime nunca foi solucionado.

O que diz a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai sobre o caso?

A comissão divulgou em 2003 dados sobre a ditadura e indicou que o assassinato de Aranda pode ter sido tramado pelo governo militar, embora o crime jamais tenha sido esclarecido.

Qual a relação entre o filme e o livro Narciso?

O filme Quién Mato a Narciso?, dirigido por Marcelo Martinessi, é uma adaptação do livro Narciso, escrito por Guido Rodríguez Alcalá, inspirado na história de Bernardo Aranda.

Como o cinema paraguaio está mudando?

O país criou a Lei do Cinema (2018), o Instituto Nacional do Audiovisual e firmou acordo de coprodução no Mercosul. Desde o sucesso de 7 Caixas (2012), a produção local ganhou impulso, com fundos específicos para o setor.

Onde posso ver o filme?

Quién Mato a Narciso? foi exibido no Bonito CineSur, em Bonito (MS), dentro da competição de filmes sul-americanos. A programação segue até este sábado (1°/8).

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