Crítica · Análises e Críticas

Participação feminina na direção de filmes segue abaixo de 20%

ResumoA participação feminina na direção de filmes no Brasil permanece abaixo de 20%, apesar de as mulheres constituírem a maioria nos cursos de audiovisual. Produtoras do setor indicam políticas públicas como principal instrumento para alcançar equidade de gênero nos cargos de liderança cinematográfica. A disparidade entre formação e ocupação profissional evidencia barreiras estruturais na indústria.

Mesmo sendo maioria nos cursos de audiovisual, mulheres ocupam menos de 20% dos cargos de liderança no cinema. Produtoras apontam políticas públicas como caminho para a equidade.

Núbia Carvalho Estrela
Núbia Carvalho Estrela Editora de Cultura Periférica · 01 de agosto de 2026
Participação feminina na direção de filmes segue abaixo de 20%
7.4/10
VereditoMesmo sendo maioria nos cursos de audiovisual, mulheres ocupam menos de 20% dos cargos de liderança no cinema. Produtoras apontam políticas públicas como caminho para a equidade.

Participação feminina na direção de filmes permanece abaixo de 20%

Dados do setor audiovisual brasileiro mostram que as mulheres seguem sub-representadas nos cargos de liderança do cinema. Mesmo sendo a maioria entre os formados em cursos audiovisuais, elas ocupam menos de 20% das direções de filmes e séries no país. O cenário foi debatido durante o festival Bonito CineSur, com a participação de produtoras e diretoras sul-americanas.

Mulheres são minoria na direção, apesar da formação maior

A participação feminina na direção de filmes permanece abaixo de 20%, segundo o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), publicado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine). Enquanto as mulheres são maioria nas atividades de exibição (58%) e distribuição (54%), elas representam apenas 17% da direção de séries e filmes brasileiros.

O anuário também aponta que, dos longas-metragens brasileiros produzidos em 2023, 231 foram dirigidos exclusivamente por homens, contra apenas 52 dirigidos por mulheres. Nos roteiros, o domínio masculino se repete: 165 roteiros de homens contra 41 de mulheres.

Onde as mulheres são maioria? Direção de arte e produção executiva

Os mesmos dados mostram que as mulheres são maioria na direção de arte (99 contra 57) e na produção executiva (110 contra 66). Para Minom Pinho, produtora de cinema e audiovisual, diretora da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e coordenadora do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (FIM Cine), isso reflete um estereótipo.

"Esse é o lugar que a sociedade convencionou que é o nosso lugar, o lugar das mulheres. Temos aí a direção de arte ou figurino, por exemplo, porque 'arte é coisa de mulher'. Isso é um estereótipo absurdo. Temos sim excelentes diretoras de arte. Mas o número de diretoras de filmes precisa crescer", afirma Minom.

Políticas públicas são caminho para mudar o cenário

Minom defende que a mudança só virá por meio de políticas públicas. "As grandes mudanças se fazem com política pública", ressalta. "E para você alcançar a política pública, você tem que ter indicador e indutor. Por exemplo, estipular que o número de mulheres em roteiro e direção em longas-metragens deve bater 30% até 2030."

A produtora destaca que não há justificativa para a baixa participação. "Ninguém pode alegar que as mulheres não têm competência. Elas estão fazendo um milagre. Foi dado a elas 20% [de cargos de liderança] nos filmes, mas elas estão pegando 44% do mercado. Isso quer dizer que elas estão fazendo muito com a pior situação possível."

O debate no Bonito CineSur

No festival Bonito CineSur, uma mesa debateu o protagonismo feminino no cinema sul-americano. Além de Minom Pinho, participaram a atriz chilena Paulina Garcia e Gabriela Sandoval, diretora e produtora de indústria do Festival Internacional de Cinema de Santiago (Sanfic).

Paulina Garcia defendeu histórias mais complexas para mulheres. "Para as mulheres, existem mais coisas do que desempenhar papéis de pessoas doentes ou que morrem a certa idade. Precisamos contar com histórias mais complexas sobre quem somos ou sobre o que queremos fazer."

Gabriela Sandoval reforçou a importância da união das mulheres do continente. "Creio que essa construção de uma rede é importantíssima. Quando se fala em mulheres em espaços de poder, sempre se vê como algo negativo. Mas o espaço de decisão é uma responsabilidade e abre caminhos para que se contem outras histórias."

O que esperar para os próximos anos

Minom Pinho projeta um futuro com equidade. "Meu sonho é a gente chegar em equidade nos próximos 10 anos. Meu sonho é que a gente saia desse atual patamar." A produtora acredita que o cinema precisa de mais mulheres na condução das narrativas. "Quando você tem uma ideia, escreve essa história e tem uma mulher dirigindo essas histórias e escolhendo as imagens que vão configurar naquela peça ou naquela obra audiovisual, isso faz muita diferença."

A repórter viajou a convite do Bonito CineSur.

Perguntas Frequentes

Qual é o percentual de mulheres na direção de filmes no Brasil?

Segundo o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, as mulheres representam apenas 17% da direção de séries e filmes brasileiros.

As mulheres são maioria em quais áreas do audiovisual?

As mulheres são maioria nas atividades de exibição (58%) e distribuição (54%), além da direção de arte e produção executiva.

Quantos filmes foram dirigidos por mulheres em 2023?

Em 2023, apenas 52 longas-metragens brasileiros foram dirigidos por mulheres, contra 231 dirigidos por homens.

O que pode aumentar a participação feminina na direção?

Minom Pinho defende políticas públicas com metas claras, como estipular que mulheres atinjam 30% em roteiro e direção de longas até 2030.

Quem debateu o protagonismo feminino no Bonito CineSur?

A mesa contou com Minom Pinho, a atriz chilena Paulina Garcia e Gabriela Sandoval, do Festival Internacional de Cinema de Santiago (Sanfic).

Leia também

Publicidade